domingo, 27 de dezembro de 2009

A imitação das ondas

A palavra competição vem do latim competere, que significa "tender a um mesmo ponto". Talvez seja por isso que a maior parte das empresas se copia tanto. Um tremendo esforço para tentar ser igual, ou seja, tender ao mesmo ponto: nos produtos, nos processos, nos preços, no padrão de qualidade, na forma de distribuição, no perfil do vendedor etc. Como dizia um velho poeta, "o homem que imita as ondas apenas dá cambalhotas", assim também funcionam algumas empresas, dando cambalhotas no mercado, parodiando as demais ou a si mesmas, num contínuo repetir - acostumadas à mesmice enganosamente confortável.

A vida é feita de escolhas e, se somos o resultado de nossas escolhas, as empresas também são o resultado das escolhas que fazem seus líderes. Podem optar, portanto, pela repetição ou pela inovação.

A escolha pela repetição é também a escolha por estabilidade e segurança. Muitos líderes pensam em suas empresas funcionando como um relógio (a quartzo!): automáticas, precisas, assíduas, constantes, contínuas, invariáveis. Como uma máquina infalível! Esse é o sonho! Tal escolha parte da necessidade de manter o controle absoluto sobre a situação. Quem pensa desse jeito vai morrer de cansaço! O mundo é instável e mutável por natureza e se você alimenta a fantasia do controle sua empresa deve estar lenta ou estagnada - e você, também.

A repetição cria empresas depauperadas. Não existem ambientes mais inadequados para abrigar seres humanos. Nada mais contrário à natureza deles, que é a de brincar, criar, bisbilhotar, aprender, inventar. Em um ambiente de repetição, o ser humano está distante de suas principais faculdades. Com o tempo, porém, dada a sua capacidade de adaptação, estará tão automático, preciso, assíduo, constante, contínuo e invariável como o sistema-empresa do qual é vítima. O tédio, a impotência e a preguiça mental tomarão conta de suas atitudes. Diante de novos desafios, as pessoas vão preferir reduzir o teto, em vez de se esforçar para aumentar a própria altura.

A ilusão do controle pode parecer adequada para líderes que gostam de tudo - burocraticamente - no devido lugar e de "cada macaco no seu galho", mas é um desastre para quem quer progredir em ambiente de mudanças rápidas e contínuas.

A escolha pela repetição é a escolha pelo enquadramento de tudo e de todos. O cargo, por exemplo, é um tipo de enquadramento. Delimita-se a área de atuação de determinado indivíduo ao seu cargo delimita-se, também, a sua capacidade de imaginação, de resolver problemas e de ter novas e boas idéias. Ironicamente, com o tempo, os próprios líderes que escolheram a repetição passam a reclamar de seus funcionários, por considerá-los pouco criativos e incapazes de resolver problemas a contento. Culparão o nível cultural, a escolaridade, a naturalidade deles e, ainda, a região geográfica em que a sua empresa se situa. Todos esses argumentos são vãos. Meros subterfúgios. A verdadeira causa está na opção que gera o modelo de empresa.

Em sincronia com o universo

A escolha pela inovação é justamente no sentido inverso. Significa não modelar o humano ao sistema-empresa, mas sim este ao ser humano. A escolha pela inovação é a escolha por um ambiente de trabalho divertido, que estimula a curiosidade e a criatividade das pessoas, um lugar de onde ninguém volta para casa sem ter aprendido algo novo. A cada dia, elas mudam, não são mais as mesmas, pois acrescentam novos conhecimentos, ampliando suas estaturas. Se as pessoas se renovam, a empresa se inova. Esse contínuo movimento de transformação é compatível com a dinâmica universal, em que pessoas, organizações e o próprio universo buscam a sincronia, mantendo-se em equilíbrio.

A escolha pela inovação é a escolha pelo aprendizado contínuo e a aceitação de que nada é estático: mercados, clientes, expectativas, necessidades e outras variáveis estão em constante mutação. As pessoas, em uma empresa, devem desenvolver a capacidade de diagnosticar permanentemente os problemas, identificar as causas, produzir soluções e sabem que, quase sempre, a melhor resposta para o problema de ontem não é mais a melhor resposta para o problema de hoje, ainda que possam até ser semelhantes.

Em um ambiente de inovação, a regra é o trabalho em time. A criatividade é maior em um ambiente de trabalho onde todos trocam experiências, informações, conhecimentos e colocam suas inteligências a serviço dos problemas organizacionais e desafios empresariais. Em um ambiente de inovação, todos estão dispostos a se superar, a sair de suas zonas de conforto, a se colocar no limite.

É claro que existe um certo estresse por conta desses desafios diários, mas isso é muito melhor do que a apatia e o tédio causados pela repetição. Existe, também, um atenuante para o estresse gerado no dia-a-dia de um ambiente de inovação: o conhecimento, como expressão da inteligência, da intuição e da criatividade.

Conhecimento é a única maneira que empresas e pessoas têm de não se repetir, de se restaurar, de se renovar, de distender suas tensões.

Sem novos conhecimentos, só resta a repetição.

Se somos resultados de nossas escolhas, as nossas escolhas são resultados de nossos conhecimentos. Podemos concluir, então, que somos resultados dos nossos conhecimentos. Sem eles, só nos resta continuar imitando as ondas, ou melhor, levar a vida às cambalhotas. E o que se pode esperar disso, senão dar mais e mais cambalhotas? Que tal mudar de perspectiva? Coragem... faça a melhor - embora não mais fácil - escolha!


Roberto Adami Tranjan

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