Tudo começa com uma ideia. É dessa forma que o empreendedor constrói o seu empreendimento: como se fosse uma memória no futuro. Muitas dessas imagens iniciais não passam de miragens. Devaneios soltos, sonhos perdidos. Nada vai acontecer. Todo negócio possui uma taxa de risco e, quando ela supera a grandeza do sonho, está selado o destino do empreendimento: mais um projeto enterrado no amplo cemitério das fadadas a nunca serem amplamente realizadas. Ficam inconclusas.
Existem casos, porém, em que o sonho é tão grande que supera o risco, então realmente assumido. Não significa ausência de receio e daquele friozinho na barriga. Significa que, contra tudo e contra todos, uma nova história será escrita. Mas, mesmo que a coragem seja de bom tamanho, não há nenhuma garantia de sucesso empresarial, algo que depende de outros fatores. A grandeza do sonho é apenas o ponto de partida.
Para o sonho se tornar realidade, é preciso traçar o plano de ação, ou melhor, um plano de negócio capaz de avaliar com uma melhor visibilidade as perspectivas de sucesso. Nele, é preciso identificar o público-alvo, as estratégias comerciais e operacionais, as previsões de receitas e despesas, as estimativas de fluxo de caixa, as necessidades de investimentos.
Em geral, quando se explica a taxa de mortalidade de novos negócios, alinham-se preferencialmente fatores mais gerenciais: problemas com planejamento, organização, controle, gestão. De fato, um empreendimento mal administrado está fadado ao fracasso. Mas não é aí que gostaria de me ater. Existe um outro fator determinante do sucesso do negócio pouco ou sequer mencionado que se relaciona ao seu gene. E a qualidade deste gene, por sua vez, tem tudo a ver com a qualidade e a intensidade do sonho. Por ser um fator abstrato da natureza dos negócios, as estatísticas que determinam a taxa de mortalidade de novos empreendimentos não tratam desse tema. Vamos, juntos, compreender a natureza dos negócios.
Ego-empreendimentos
Os sonhos de sobrevivência surgem, em geral, quando a economia está em baixa e a taxa de desemprego, elevada. Na luta pela sobrevivência e na ausência de alternativas de trabalho, o que resta é a tentativa de empreender. E vale qualquer coisa, desde que gere uma renda mínima para financiar as despesas domésticas. Essa é uma das razões dos ego-empreendimentos, mas existem outras.
É o caso do empreendedor que deseja ser dono do seu nariz, sem prestar contas para ninguém. Pensa em algum negócio que possa se transformar no seu sonho de liberdade. Quer livrar-se das amarras do trabalho assalariado, com horários e rendimentos definidos. Sonha com mais tempo livre e mais dinheiro no bolso. Uma vida feliz, financiada pelo negócio próprio.
Empreendimentos com essas origens são quase sempre frágeis e vulneráveis. Trata-se muito mais da baixa intensidade do sonho do que dos aspectos gerenciais utilizados comumente como exemplos. Note que, embora as razões e os motivos sejam diferentes, empreendimentos calcados na falta de emprego e no anseio pela liberdade individual estão voltados para os interesses do próprio empreendedor. Por isso, são aqui denominados ego-empreendimentos.
Quase sempre, esses negócios entram no mercado acotovelando-se com tantos outros similares. Para o ego-empreendedor, não existe espaço para todos, nem diferença entre os produtos e serviços oferecidos pelos concorrentes. Por isso, o ego-empreendedor enxerga o mercado como um lugar de disputa, de competição acirrada, onde só sobrevive o mais astuto, ligeiro, esperto. Mercado não é lugar para brincadeira e negócios existem para ganhar dinheiro. Exclusivamente. As conversas do dia-a-dia estão relacionadas com custos ou despesas, fluxo de caixa, concorrente, faturamento, inadimplência, produtividade, objetivos e metas etc.
Lucro, para o ego-empreendedor, é resultado da equação receitas menos despesas e será tanto maior quanto maiores forem os esforços para maximizar essa equação. Essas são as características do modelo mental do ego-empreendedor.
Alter-empreendimentos
O alter-empreendedor é um observador do mercado. E também um grande curioso. Percebe que existem necessidades não supridas pelas empresas existentes. As ofertas, na forma de produtos e serviços, não conseguem resolver os problemas dos clientes, ou não oferecem um elevado nível de satisfação. É aí que o alter-empreendedor se inspira e se motiva. Tem um desejo de atender, satisfazer, surpreender. Gosta de criar e acha-se capaz de fazer algo diferente. Por isso, não teme a concorrência. Para ele, a imaginação é o grande diferencial competitivo. Acredita que sempre existe mercado para uma boa idéia.
Diferentemente do ego-empreendedor, o alter-empreendedor está voltado para o cliente. A pergunta-chave não é "o que eu quero produzir" ou "o que eu quero fazer", mas "quem é o cliente que eu gostaria de satisfazer". O alter-empreendedor pensa mais nas necessidades do cliente do que nos atributos dos produtos. Por isso, reconhece o cliente como o centro do sistema de negócio e sabe que os produtos e serviços são alternativas para atendê-lo e mantê-lo fiel.
As conversas do dia-a-dia nesse tipo de empreendimento estão voltadas a atendimento, fidelização, relacionamento, superação de expectativas, encantamentos, excelência, criatividade, propósitos, valores etc.
Lucro, para o alter-empreendedor, é o dinheiro que está no bolso do cliente e que este vai liberar até com velada gratidão caso suas necessidades sejam atendidas e satisfeitas. Essas são as características do modelo mental do alter-empreendedor.
Holo-empreendimentos
Holo é uma palavra grega que significa inteiro, completo, totalidade. Por isso, o holo-empreendedor possui uma visão mais sistêmica de mercados, de negócios e resultados. Vê o mundo como um grande empreendimento, mas ainda inacabado e com muitas imperfeições. Sente-se responsável e quer colaborar na construção dessa obra maior. Para ele, um negócio só tem razão de existir se fizer parte dessa grande obra e contribuir para a evolução da sociedade como um todo.
Para o holo-empreendedor, a pergunta-chave não é "o que eu ganho com isso" ou "o que o outro ganha com isso", mas "como eu posso contribuir para um mundo melhor". Não vê a empresa como uma propriedade, mas como um meio através do qual conseguirá fazer bom uso dos seus melhores talentos. Sente-se capaz de auto-realização e sabe que seus colaboradores também têm direito a esse objetivo, ou seja, da busca de realização.
As conversas do dia-a-dia estão relacionadas com solidariedade, responsabilidade social, cidadania, respeito ao meio-ambiente, às pessoas e à vida.
Lucro, para o holo-empreendedor, faz parte de um fluxo que gera benefícios a todos, por onde quer que passe.
Tela mental
Comecei dizendo que um novo empreendimento parte de uma idéia. É sempre assim, mas vimos que essas idéias produzem empreendimentos de diferentes naturezas.
Embora a realidade esteja aí ao alcance de todos, ao examiná-la cada um constrói a sua própria imagem dela. E isso se dá por dois motivos: primeiro, pela capacidade que cada um possui de enxergar o que está diante de seus olhos. Não vemos tudo com certeza, muitas coisas nos passam despercebidas. E talvez nessas coisas que nos passam despercebidas residam as melhores oportunidades.
Mas essa é uma parte da questão. A outra é que cada um de nós processa de maneira diferente aquilo que vê. As imagens que construímos decorrem das nossas percepções. Nossas percepções, por sua vez, resultam daquilo que valorizamos e em que acreditamos. Em suma: criar ego, alter ou holo empreendimentos depende das intenções, das crenças, dos valores e do estágio de consciência do empreendedor. Este, sim, é o fator realmente determinante do sucesso!
Roberto Adami Tranjan
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